sexta-feira, 15 de março de 2013

O peso do tempo

Hoje estava voltando pra casa após um exame médico e dentro do ônibus fiquei olhando um casal. A mocinha estava sentada e o rapaz estava em pé ao lado dela e enquanto conversavam fiquei notando a mão dela acariciando a perna dele por cima da bermuda.
Olhei minhas mãos e olhei a mão dela, não mais bela que a minha no formato mas o viço... sem comentários!!
Daí pensei no peso que tem o tempo.
Não é segredo pra ninguém que amo viver mas fiquei pensando no que significa querer viver mais um dia.
Quando noto que as marcas do tempo se manifestam em mim é que me dou conta do tempo que estou por aqui e sozinha.
Vixe! Não tem que parecer uma reclamação mas, de certa forma, não deixa de ser uma queixa.
Quando percebo minhas marcas, fico triste porque minha vida foi maltratada e não tenho marcas por ter tido filhos, por ter trabalhado muito, por ter me preocupado em manter minha família unida, minhas marcas são da solidão, foi um maltratar solitário, sem uma mão a me segurar e incentivar, sem alguém a me esperar.
No fim minha vida foi passando e não houve quem me esperasse.
Estou triste?
Eu não. E nem poderia.
A questão é:
A vida está passando e me sinto privilegiada por poder ver minhas marcas aparecerem.
Contraditório?
Olhando para o lado positivo da situação, eu estou vivendo um dia após o outro e ver as marcas aparecerem, marcas que contam minha história, me diz que meu objetivo está sendo cumprido, vivendo e me percebendo a cada dia.

Dag Veloso

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Música sem letra



Eu fechei meus olhos para ouvir a música e ela se entrelaçou no meu ser, tornando-se parte do que sou.
Sou música sem letra, pura melancolia, palavras inexprimíveis.
Tentando entender, ainda questiono.
O vento se faz meu companheiro, a trilha sonora dos meus dias.
Sem palavras ainda procuro a letra ideal, onde está?
Onde está? 



Dag Veloso


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Dando à luz

Sim, sou Dag Veloso até a medula mas não posso doar, não posso salvar uma vida, talvez duas ou, ao menos, tentar.
Todos dizem que, nós pacientes leucêmicos, somos heróis mas não somos nós quem podemos salvar uma vida.
Nós é que esperamos por quem nos possa salvar, por uma atitude de amor como essa.
Somos nós os heróis, será?
Acho que as pessoas têm medo de nos olhar como frágeis mas é assim que ficamos quando adoecemos.
Nossa força vem da fraqueza mas sozinhos nunca conseguiremos superar, curar.
Nos ajudem.
Se cadastrem como doadores de medula óssea.
Salvem-nos.

Dag Veloso




domingo, 13 de janeiro de 2013

Simples felicidade

Simplicidade alcança felicidade.
Pessoas que nunca se satisfazem com o que são ou têm não entendem o real significado da felicidade.
São tolos que sempre procuram por algo maior quando o que são é o que há de maior.
Pois a felicidade é um estado de espírito conduzido pela decisão e atuação do ser humano, não se pode depender de alguém pra ser feliz e não se pode ser feliz sem contagiar quem está ao redor, tampouco tal contágio é apenas euforia, pode ser o simples prazer da companhia e o que se sente com ela.

Dag Veloso




segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Companheira de viagem



 A solidão é minha companheira de viagem e minha bagagem está sempre pronta; nem mesmo chega a ser desfeita.
Me sentindo assim durante a madrugada foi que me lembrei de quem é meu Deus, mesmo que você se sinta assim, só, saiba que nunca está, Deus trabalha mesmo no silêncio e te guarda a todo instante.

Dag Veloso

( https;//www.facebook.com/dagvelosolendo )

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Grata à quê?

Hoje soube do casamento da filha mais velha do meu antigo médico, tenho certeza de que foi lindo até mesmo pela beleza da própria moça tão encantadora que é.
Só que não pude evitar de lembrar da vez que ele riu por eu ter ficado estéril e o imaginei levando-a ao altar, realizando um dos sonhos dela, talvez o dele mesmo, inevitavelmente o que se espera após uma união matrimonial, mesmo que não de imediato, é a dádiva do filho ou filhos.
Não pude conter meus pensamentos e indaguei: _Que tipo de ser humano sorri diante de suas realizações tendo destruído ou zombado dos sonhos de outra pessoa?
Foram tantas as vezes, foram tantos sonhos que escapuliram de minhas mãos, meu coração foi dilacerado impiedosamente e a cada tristeza lá vinham as pessoas me dizendo que eu devia ser grata.
Grata à quê?
Me diga você, a que devo agradecer?
No auge dos meus sonhos e antes mesmo de concretizá-los os perdi: saúde, casamento, filhos, juventude, viço...
É muito simples pessoas virem me dizer que tenho que ser grata quando suas vidas são quase como contos de fadas.
Não, eu não estou sendo ingrata agora, também não estou desejando coisas ruins pra ninguém até mesmo por conhecer essa moça e saber que ela é um anjo. Apenas estou indignada com a maneira como fui tratada e não somente uma vez mas muitas.
Esse mesmo homem tantas vezes segurou minhas mãos e me fez crer que se importava, me conquistou com seu jeito brincalhão mas assim como meus sonhos também a amizade dele era uma ilusão.
As coisas que vivo ainda não são de todo mal, estou como ele mesmo me disse certa vez, sobrevivendo e sobrevivendo bem. Mas tudo que me foi feito ou dito foi com injustiça porque eu já estava no fundo do poço e não havia necessidade de qualquer pessoa tripudiar.
Agradeço, sim, pelas tantas chances que tive e ainda tenho mas não venha ninguém me dizer que devo ser grata quando não passam pelo mesmo que eu passei. A dor do câncer acrescida à dor da alma só quem já sentiu sabe como é e não aceito que mais ninguém me fale que tenho de ser grata quando vejo pessoas insensíveis fazerem exatamente as coisas que se alegraram serem impossíveis pra mim.
Sou grata, sim, mas não me conformo quando, nem ao menos, recebo um pedido de desculpas.

Dag Veloso



2012

2012 está acabando e foi um ano incrível, não posso reclamar pois foi um bom ano mesmo com as dificuldades.
Desde fevereiro quando aniversariei me foi dito que seria meu ano, uma nova história começava a ser escrita e Deus me restituiria algo perdido.
Foram muitas coisas que perdi mas nem todas eram pertencentes à mim e se foram tarde, e não fazem falta.
A única coisa que sei que é minha e me foi tirada, foi a saúde, o resto que perdi nada era meu, de fato.
Minha história começou a mudar uma semana após meu aniversário quando no hospital em que fazia tratamento fui destratada por uma médica. Naquele dia eu fiquei tão perdida que me sentei num canteiro de frente ao estacionamento do hospital e com a cabeça entre meus braços cruzados chorei como uma criança perdida da mãe. Naquele momento em meio ao choro, orei à Deus pedindo que me tirasse dali pois não aguentava mais tanta pressão e tanto descaso.
Não precisei brigar, apenas encontrei nas pessoas o auxílio do próprio Deus que me tirou de lá no mesmo mês.
Eu espero que um dia os médicos entendam que, nós pacientes, somos seres humanos e temos medos, temos ansiedades, incertezas, instabilidades emocionais; ora por medicamentos, ora pela doença, ora por insegurança mesmo. Não entendo como seres humanos com tanta habilidade, tanta inteligência podem nos tratar como se não existíssemos, como se fôssemos nada.
Na minha lista de coisas a serem realizadas, essa é uma delas, que os médicos nos sintam como seres humanos que querem confiar neles, que precisam deles, que precisam de defensores reais, pessoas que lutem por nós porque estamos fragilizados no meio de nossa guerra íntima com um inimigo que nos consome sem misericórdia alguma.
Mas foi após aqueles dias tão decisivos que eu passei a ver portas se abrirem, oportunidades, pessoas e passei a me ver como um ser humano autêntico, coisa que o mieloma não me deixava mais ver.
Quando se tem uma doença, principalmente se for incurável, você se funde à ela, faz parte dela e ela de você, não deveria ser assim mas é o que acontece com algumas pessoas (aconteceu comigo) e depois de um tempo fica impressionado quando entende que ela não faz parte de você, nunca fará, é uma intrusa e deve ser despachada o quanto antes.
Por algum tempo eu me fundi e confundi com o mieloma mas ele não é Dagmar, é só uma doença que não me acrescentou nada, apenas pude, através da situação, aprender coisas e conhecer pessoas muito importantes.
2012 foi marcado por novas esperanças, novas sensações de medo, alegria, raiva, amor, paixão, decepção, pude sentir a vida durante todo esse ano, senti minha existência pura e simples a cada dia.
Experimento agora uma nova sensação, a expectativa pelo próximo ano. Nunca em toda minha vida tive tanta ansiedade pelo novo ano, por saber o que será, que história escreverei, que tipo de situações Deus me permitirá viver, que milagre acontecerá...
Estou com medo de 2013?
Pra ser sincera eu não queria que o ano acabasse, meus dias foram bons e não tenho pressa do amanhã mas eles correm com uma agilidade sem par e agora estamos às portas de um novo ano. Não há como retroceder, apenas ir em frente.
Estou desejosa de uma vida melhor e hoje em dia existe apenas um único sonho que preciso realizar pra dizer que valeu a pena tudo isso mas ainda nem sombra dele.
Quem sabe em 2013?!
Meu Deus! Abençoa meus dias, seja minha saúde, seja minha paz, seja meu tudo.

Dag Veloso