quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

o luto

O luto.
Pra mim é uma morte em vida, um pedaço que se foi, que ficou apagado, sem respostas, vazio.
Eu sinto falta do que eu sentia, de como era amar mesmo sem saber o que eu significava pra ele. 
Não aconteceu. A vida passou, ele se foi e não sei, nunca saberei.
Talvez nem ele soubesse. 
Me lembro do amor que sentia quando era criança, a alegria de vê-lo chegar. 
Eu já fui a fia do pai, o pai nordestino que se afastou conforme eu cresci. O cheiro (beijo), os abraços e o anseio pela atenção dele. 
Mas ele se foi, não me deixaram dizer adeus, nem me permitiram dizer o quanto ele significava pra mim. 
É, mas eu não fui uma boa filha, na adolescência me rebelei, desconsiderei a importância dele e os anos se passaram e a disputa pela atenção dele se tornou desleal e não houve vencedores. 
Todos ficaram pelo caminho mesmo quem pensou ter vencido.
Os filhos nunca deveriam observar os erros dos pais porque eles nunca sabem a verdadeira razão daquilo tudo.
E a saudade quase sufoca.
E a ausência tira o chão. 
E o amor não termina com o óbito. 
Havia um terço em suas mãos e passei meus dedos em suas mãos, ainda estava palpável embora frio, continuavam bonitas e macias, seus braços tinham muitas manchas, hematomas, talvez de acessos de soro ou da própria doença, seu rosto estava envelhecido mas bonito, parecia dormir ali. 
E a dor do nunca mais invadiu todo meu ser e trocaria de lugar com ele naquele instante. 
Mas ainda estou aqui, sofrendo a ausência, tentando descobrir o sentido de tudo que vivi. 
Eu me pergunto pra quê e não consigo entender coisa alguma.
Não há mais nada a fazer a não ser tentar ser diferente com as outras pessoas que ainda estão aqui.
Mas o vazio que ficou se tornou a indiferença sobre aquilo que antes me atingia. De repente nada me importa mais, pelo menos as pequenas e insignificantes coisas e sentimentos. 
Quando algo me decepciona logo some nesse buraco sem fim, como se nada fosse importante senão a vida daqueles que amo. 
E quando alguém diz que não gosta de mim eu fico feliz porque a pessoa está viva. Não tem problema nada do que pensam ou falam desde que continuem pensando e falando. 
Porque quando não houver mais voz, quando a ausência for pra sempre a dor é insuportável e nada que foi feito ou dito tem qualquer importância. 
E eu nem sabia da minha capacidade de amar. Na verdade sempre fui mimada por todos, por muito tempo me doía por qualquer bobagem porque estava acostumada a ser a preferida. 
Acontece que uma pessoa mimada se torna inconsequente e vive num mundo de futilidades.
E quando o nunca mais acontece todo o resto se torna ridiculamente pequeno e sem importância. 
A dor é insuportável. 
Nada mais importa quando essa dor se instala na alma. 
Fico feliz em saber que vocês estão vivos, isso é o que mantém a balança equilibrada pra eu não sucumbir à dor.
Dag

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